quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A vida dos outros

Nem você entendeu
nem eu
que não se é perverso
aqui.
Nem ninguém entendeu que
perverso
é o mundo que cataloga contemporâneos
por suas gerações.
Neste compêndio ficamos irremediavelmente distantes
Você
Eu
e o filho pródigo que jogamos atrapalhadamente
no mundo das enciclopédias.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Ruir

Deixar-se engolir pelos nós
dessas línguas, esgotar-se à
última gota de saliva, dormir
os poros da poeira e das

tintas; mas lembrar que mesmo a cinza
oscila entre ser cor descolorida
e ser livre. Todo rompimento
é um ato de amor, acredite.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Piscar

O espelho pede maquiagem

Porque hoje eu acordei desfigurada

Embaçada no vidro do carro

Escorrendo entre o delírio e

A gravidade de um sorriso.

Piscar,

Sutil pretexto do corpo

Para brincar de esconder

E de achar o mundo

Entre o emaranhado dos cílios

De alguém.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Frágil

O corpo é precipício da alma
E a física um balé alegre de tormentos
Não adianta ancorá-lo nas estrelas
Pois a gravidade nasceu para todos
Como o sol entre todas as pernas
Todos redutíveis
Ao afeto

terça-feira, 19 de maio de 2009

Marissa Nadler, "The hole is wide"

baixa.la - The Hole is Wide.mp3

gift da babee <3

sábado, 16 de maio de 2009

vapor


fev 2009/ selfportrait
mirage k2000/ filme FUJI iso 1800

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Mão dupla

Vai com um pé dentro e,
o outro, dentro de coisa outra.
Como se calçasse sapatos
de diferentes pares
para andar às margens da lagoa

Cada passo a seu peso,
cada tempo a seu compasso.
Ele caminha em duas direções,
a um passo de perder o próprio rumo
para o acaso.

Peço que fique descalço,
para sentir o plexo da terra:
a melhor vitrine de sapatos.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Fur Alina - Arvo Pärt



Algum processo.

Mais sobre o Arvo, na wiki.

Ídolo.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A cena

Nasci assim.
Arrebatável.

E na angústia nauseante
do silêncio esfrego o
morto-vivo de teus olhos
atrás do palco
dos juízos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Outono

Com as mãos silenciosas
repouso nosso mundo nos
joelhos de um gafanhoto

e dou passos para trás do
vento que me leva as águas
e farfalha as laranjeiras e
os cabelos que chicoteiam
um rosto indelével

que sorri
secretamente
perversamente
envergonhado






(refazendo a idéia* inicial do anterior)

*cagarei, enquanto puder, para a reforma ortográfica.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Anoitece

E com as mãos silenciosas
repouso nosso mundo nos
joelhos de um gafanhoto.

Bom dia. Amor.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Cristal

O charme é este limite
Entre o belo
E o monstro

Jogo irônico, alegórico
Do gozo que se funda
Em delicados desvios

Excitantes acidentes
Horizontais

Clara se esguia
Na ponta de cada pé
Com braços que alcançam seu quase
Desejo

A música não consegue
O som de todas as mortes
E tudo paira no alto depois
Dos dedos

Clara se esgota
No chão de cada pé
Com lábios que alcançam seu quase
Desejo

O sorriso escondido de Clara mora
Na pausa da música, ao lado dos deuses
Onde se olham dura e delicadamente
Os espelhos

quarta-feira, 25 de março de 2009

estudos sobre a língua em Belleville

Je t’ai aimé
secretement
au coin des Solitaires

J’ai oublié les
jours du fevrier
dans les yeux
aux vanilles
qu'il a transbordé
du mon petit
verre

C’est ton alcool
qui me parfume
comme un souffle
de melancolie

Parce que mes pieds, chérie,
ne sont pas miens
aprés cettes nuits
parisiennes

sexta-feira, 13 de março de 2009

afinal para que serve
a língua afiada
senão para chicotear
as vergonhas de quem
lhe perturba o equilíbrio
das palavras
?

terça-feira, 10 de março de 2009

sempre bataille



vídeo da argentina Ludmila Terni

segunda-feira, 9 de março de 2009

o amor...

... esta intimidade
que se ganha e
que se perde
com os dias,
esta cumplicidade
complicada que
se cumpre longa e
dolorosamente
no ciclo infinito
das sensações cotidianas

sexta-feira, 6 de março de 2009

Good times...



Adoniran e Elis no Bixiga, 1979. Lindo.

terça-feira, 3 de março de 2009

Dança

Dos encontros sobre a cama
O que destila são
Os supinos de um eletrocardiograma
Em slow motion
Até o dia acordar
Completamente desfibrilado
Desejando a varanda
Mais um passo.

Concubina

Do esôfago ao ânus
O ônus
Da tua onipotência

– Meu corpo responde
Nauseante
A teus carinhos –

De pai

Um rasgo no estômago
Que conservo em desarranjo
E em paz

Pleurer comme une Madeleine

Ela chora como uma Madeleine
Depois de pecar todos os dias
Religiosamente

É seu vazio que se preenche
A cada esvaziamento
De contente

E cada lágrima é bom sinal
De que todo deslize nunca
É pecado o suficiente

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

l'escargot

há um desenho desses corpos no ar
e um resto de mim
que fica em cada traço

como poeira soprada ao óleo
que secreta cada poro
daquelas digitais furtivas:

a minha unção parisiense
de todo santo dia.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

desejo

este corpo sofre
a linha do tempo
de dois

e definha pois a
brasa que derrete toda pele
hoje fere sobre a dor da cicatriz.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Frisson

Um golpe de silêncio
cristaliza o olhar e
nos arranca este sorriso
hidratado
pelas cócegas do sangue
que nos irriga
os músculos desconhecidos
querido,
as horas do copo sempre evaporam
com a minha lavanda.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

corte & costume

vejo as flores, Dê,
que dormem atrás da nuvem de alfinetes
que lhe estufam a boca

é belo quando rasteja,
com agulha e linha entre os dentes
sob as rendas barrocas e

e sob as sedas, Dê,
quando você se emaranha
na orquestra esvoaçante dos tecidos

feito o bicho, delicada
larva que se acanha no jardim
de seu casulo arrefecido

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Éter

Esqueci as vergonhas no bar
e encontrei as suas,
logo ali,
na farra úmida das fronhas
desbotadas pelo álcool da
nossa colônia inglesa
que evapora, agora, enquanto
você ri

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Criança

vou te espreguiçar no primeiro
travesseiro de memórias frouxas
para ver se com o outro subverto
tua cabeça, infantil e oca,
às alegrias ignoradas que se
perderam bem no meio
de tuas coxas flácidas

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

tinta

os suspiros do mar se escondem nas amêndoas da orla
e nas conchas recheadas de saudades da praia

o verde da concha, ninguém roubaria
pois só ela pode colorir amêndoas à maresia

Ipanema hoje é menos muda, porque concha
e amendoeira podem mudar de cor

no tempo delirante de cada dedo dela

tela da Beta :)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Lírica

íntima,
toda e qualquer palavra que
repousa em cada mão

física,
o esforço perdido ao juntá-las
é o poema que se dissipa

não no ar

Luau

os dedos que esfolam o aço do violão
não tocam as notas da partitura que
escreveu com os dentes
nos gritos de minhas costas

porque a próxima oitava é sempre a
primeira farsa melodiosa
quando os nervos supõem as notas
que fazem as vezes de cordas

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

tempo é silêncio disfarçado de vida.
.silêncio é tempo disfarçado de vácuo

Lamba

eu era uma criança feliz


até descobrir



que você escondeu uma gilete




no meu picolé
... e não há lacuna ou abismo ou aresta
capaz de sublinhar o limite
entre o teu corpo
e o meu

.
.
.

Mas há este corpo e este corpo
que se deforma ao sol
porque tudo deseja
e se modifica

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Antes da queda

O que toca, ora esmaga se
as palavras tropeçam na língua,
atropeladas entre soluço e lágrima.

A fala já é espera, o
silêncio é um bem que se calça,
quando o êxtase precede a queda.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

cadeira e janela



enquadrando a janela da Casa das Rosas

Religiosa

Vestiu sua seda nude e na
confusão do que era pele ou pano
fez seu melhor plano vidro
afora.

Não há cor que agora possa
encharcar-lhe os olhos nem
vento que golpeie seus trôpegos
sorrisos

- os vestígios esquecidos em
seu corpo são roxo-esverdeados
como os olhos que encerram
a páscoa que não a festejou -

Não há amor que agora possa
emaranhar ventre e doutrina se
esta porca nada aos peixes
contra o fluxo da latrina

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

É tudo o que este corpo assume
aos estilhaços do que o sucumbe
no ruído que sustenta a dança:
essa doença que desmancha
os dentes e resume a ira que
presume o caos no coração que,
por costume, apaga o fogo do amor
com a manta negra do ciúme.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

a parrisse

encontrei por acaso
a mala que esqueceu
quando foi a paris

nela
meus olhos miúdos sangraram
na festa de um beaujolais

nouveau

as roupas gemiam como o acordeão
cansado
que embebedava o quartier

latin

e o perfume
cheirava às putas do pigalle
tão suaves como só

a parrisse

peguei pra mim
sua bagagem e meu tropeço
que perdeu viço:

você voltou

mas o vício que fica
entedia
no recomeço

da minha festa de amor

Aquarelas

Beijou as paredes do quarto com
Os cílios de carvão molhado
Pintados para desenhar algum
Rosto desfigurado.
Pousou à primeira nuvem e
Foi dançando seu pequeno enfado
Até rabiscar enfim o teto
Num piscar de olhos aguados.

domingo, 26 de outubro de 2008

Ressaca

Foi preciso enraizar o tempo
Para que farfalhassem os ecos
De um carnaval fora de época

Tudo o que se viu foi o balé
Das folhas secas na calçada

É doce a ressaca
Ainda que tudo o que se vomite
Seja essa flora tardia

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Eternidade

É por tudo ser eterno
que mesmo após a morte
você sobrevive.

É por ser o céu perverso
que o luto de quem vive
dura o tempo da sorte.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

a doença do acaso

jamais saberia que uma noite apenas
transformaria um lençol embaraçado
em anzóis estalados na língua

se não beijasse com o peito escasso
essa foto que em minha boca míngua
vermelha e tenra como o meu escárnio

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cadeira

Parque da Luz, agosto ou setembro de 2008

Perda



Quatro passos e

envergo o olhar sobre a escada

que recolhe os efeitos da luz;

a virgem do vitral carimba minha cara

e esqueço que o caminho de casa

é só um desenho

que eu supus.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Eu fotografei o sol

Em Campos do Jordão, inv/08

terça-feira, 30 de setembro de 2008

bolo

eu quero algo
para dar leveza
ao meu bolo

mas não quero
a leveza vazia
que fermento dá

claras em neve
compõem à risca
também dão gosto

a este trigo
tão sem graça
que quer aerar

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

teto de vidro


Casa das Rosas, 21 de setembro de 2008

domingo, 21 de setembro de 2008

solstício

ao contemplar a forma:
a noite é para dentro
e o dia, para fora.

por isso, todo o igual
nos escapa, apenas,
pelo igual do gesto.

e dois iguais se encontram
pela diferença que os conduz

o que difere o dia da noite
é só o tempo de tocar a luz

Um beijo...

... Até pode brincar

com algumas densidades.


Mas ele,

por ele mesmo,

não diz nada se

alguma coisa,

por meio dele,

não estiver sendo

dita.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

a morte do soneto

o soneto era uma mentira
que engessada na forma
rompeu com a delicadeza
e assim com a poesia
que rompeu com o método
para sobreviver
enquanto o soneto
borboleteava ao passo
que morria

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Domingo

o poema escrito no sonho se
apaga à luz da madrugada cinza

é a obsessão contraceptiva da
cidade que o impede de existir

Domingo é este enfadonho que
ruidoso em seu silêncio ainda

secreta nuvens abismadas sob
os passos que não querem vir

livres como o verso branco e
póstumos como madeira antiga

como a dura mão ensimesmada
que destila o que não expelir

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Lydia

O ípsilon de seu nome
era a furtuosa fenda
da metáfora de seus dias.
A letrinha, pequeno anzol,
para arrastar presas e iscas
às galerias úmidas de
sua grega alma híbrida.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Não por inteiro

fragmentos experimentais da cena e
o que escapa é o que foge à fuga:
aquilo que demitimos da corcunda do
tempo que a si não mais condena

a parte que vai leva junto a poeira e
não deixa rastros da partida, leva os
quadros e as sombras e as cores dessa vírgula.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Sorriso

Cerro os olhos
quando lembro
quão obsceno
é teu olho.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Aquarela

confie
na cor que se furta
quando nada

Ponte Aérea

Paisagem

Havia beleza lá fora
onde mar e céu aninhavam a brisa
que arranhava o corpo a reverberar pela orla

Agora

Há virtude lá fora
onde janelas e carros refletem a vida
que desarranja o corpo a vagar por sua alma

Fundamental dessemelhança

Poder olha pra fora
e ter de olhar para a própria herança

Temporal

Cada lágrima,
um calo
sobre o colo de
quem - consente
quando - cala.



engraçado, eu adoro esse...

terça-feira, 22 de julho de 2008

Duna

Com a pinça de seus calos retirou,
uma a uma,
as agulhas que plantaram
no Saara daquela retina

E a resignação de quem amou,
dia a dia,
não é mais o que arranha,
mas areia doce dos figos

da menina.

Dessoneto piano

A imagem grisalha da sala
diz a febre das demoradas teclas
no marfim de cada acorde:

Ele é apenas um peso que
não mais carrega a
saliência musical que escorre
uma ampulheta viva

À deriva, dorme sob outros
retratos e flores que em vasos
dissecam suas notas

Como os homens que gozam
o preto-esbranquiçar das horas
em caixas de madeira,
pedra e fita coloridas.

Dessoneto largo

aquilo que destila de seus olhos,
mistérios de silêncio em cada cílio a
desabar no ventre andarilho da
alma que se lança em cada poro

o tempo se curva a afagar a noite e
alarga a aurora para suspender a
breve cinza de sortidos paetês

a luz é acre, engodo, sacrifício
que vomito em meu ouvido a
mastigar as unhas do passado

velado em cada sorriso abafado,
costurado nas entranhas do não-dito
corando a terna espera de um espírito
imerso em seu carnaval inventado

Proparoxítona

um espaço
é o tempo que vem contar
os passos da cegueira

de tudo o que pousou
na cama pobre
só os cabelos cacheados
não a difamaram

eles não mais estão lá
nem na cama
ou fora dela

eles se guardam onde
guardam um pedaço do
espaço que nunca
existiu.

sweetheart

não é fácil caramelizar um coração
eriçado pelos fantasmas de abril
não é fácil, bayb, nem violar o segredo
ou a perversão que mancha os dedos
de qualquer alma

- aprendi que os piores ruídos
acontecem em silêncio -

tudo acontece em silêncio

nesse seu coração manco, e tão caramelizado,
que se derrete, exposto e velado,
with all some Love
and saudade

Desde quando?

desde quando o silêncio se legitimou
nessas gotas que me calam a boca;
desde quando a cidade deixou de me invadir
para ser devassada pelas nossas horas;
desde quando o lençol da tua pele amorteceu a queda
do meu rio.
desde quando esqueci o ar
do lado de dentro
do mundo lá fora.